O procurador da república Paulo
Gonet não perdeu tempo. Mesmo ainda na terça-feira 01/09, quando o Brasil
inteiro nem tinha terminado de digerir todo o conteúdo das mensagens enviadas
por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes, cujo sigilo havia sido retirado pelo
ministro André Mendonça, o procurador-geral da República defendeu a nulidade completa
do relatório da Polícia Federal, tentando matar ainda no nascedouro uma
eventual investigação sobre possíveis crimes que poderiam ter sido cometidos
pelo ministro, como tráfico de influência, advocacia administrativa, obstrução
de Justiça ou até corrupção passiva.
Ocorre que o procurador da república
Paulo Gonet não tem a menor legitimidade e moral se não do ponto de vista
jurídico, no mínimo do ponto de vista moral para tentar travar qualquer
providência envolvendo Daniel Vorcaro. Como a pressa é inimiga da perfeição,
Gonet só conseguiu encontrar um argumento bastante pedestre para tentar blindar
Moraes: o de que Mendonça teria atropelado o procedimento legal, já que apenas
o plenário do STF possui competência para processar, julgar e autorizar
investigações contra seus próprios integrantes.
Mas o que Gonet ignora, ou quer
ignorar, é que Mendonça não atropelou nada, pois ele não abriu nenhuma
investigação contra Moraes. O investigado era e sempre foi Vorcaro; uma vez que
surgiram nos elementos periciados as referências a Moraes, Mendonça fez o que o
rito manda: pediu esclarecimentos justamente para que pudesse submeter ao
plenário como ele já prometeu que fará um pedido para que Moraes passe a ser
investigado.
Uma manifestação tão apressada e
tão primária só reforça a sensação de que tudo o que o procurador-geral deseja
é colocar uma pedra sobre o assunto o quanto antes. Não lhe faltam razões para
isso, e são essas mesmas razões que o desqualificam como procurador da
república.
“A proximidade demonstrada nas
mensagens entre procurador-geral e banqueiro basta para colocar em dúvida sua
imparcialidade”.
Que havia algum nível de
relacionamento entre o dono do Banco Master e o procurador-geral da República
já era algo sabido desde que o nome de Gonet apareceu na lista bastante seleta
dos convidados para a degustação do caríssimo uísque Macallan, em um clube
londrino, em abril de 2024. E, ainda que a maior parte do relatório preparado
pela PF a pedido de Mendonça trate das mensagens enviadas por Vorcaro a Moraes,
o procurador-geral também está nele, e o que consta no documento não é nada
abonador.
As trocas de mensagens entre
Gonet e Vorcaro, feitas por meio de um intermediário, o advogado Ciro Soares,
mostram a animação do procurador-geral com os eventos exclusivos do banqueiro,
e indicam o pagamento de ao menos uma viagem a um filho de Gonet.
O procurador-geral realmente
gostou da experiência londrina, a ponto de, quase um ano depois, afirmar que
estava com “saudades” do banqueiro e, ao conversar com o advogado sobre um novo
encontro na capital britânica, responder com um “Oba!!! Tomara que tenha
charuto e Macallan!” Poucos dias depois, numa nova troca de mensagens entre
Ciro e Vorcaro, o advogado questiona:
“Gonet perguntou se o filho dele
pode ir com a gente para Londres”, ao que o banqueiro responde: “Óbvio, né?”.
Em seguida, Vorcaro recebe de uma funcionária do Master uma lista de nomes para
que ele aprove o pagamento das despesas de viagem, e responde com um “Pedro e
Ciro ok” Pedro, no caso, seria Pedro Gonet, filho do procurador-geral.