Muito além do Master: o emaranhado financeiro por trás do caso Fictor

O colapso do Banco Master desencadeou uma reação em cadeia que expôs a engrenagem do crédito privado no Brasil

Por: Edilberto Araújo | 04/02/2026

Muito além do Master: o emaranhado financeiro por trás do caso Fictor

((Foto: reprodução/Youtube Fictor))

O colapso do Banco Master desencadeou uma reação em cadeia que expôs a engrenagem do crédito privado no Brasil, surpreendendo pela dimensão e pela diversidade das supostas fraudes reveladas.

A cada novo episódio, surgem ramificações envolvendo fundos de investimento, securitizadoras, sociedades em conta de participação (SCPs) e empresas do sistema financeiro formal, muitas vezes fora do alcance efetivo da fiscalização.

A bola da vez é o Grupo Fictor, holding com atuação predominante no setor de alimentos, que entrou com pedido de recuperação judicial no domingo (1), alegando “crise reputacional” deflagrada após a tentativa de aquisição do Master. A operação havia sido anunciada como uma compra conjunta com fundos dos Emirados Árabes Unidos não identificados publicamente.

No dia seguinte ao anúncio da oferta, em 18 de novembro, o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Master, aprofundando uma crise de confiança que acabou se estendendo à Fictor. Desde então, clientes do grupo pediram o resgate de cerca de 70% dos recursos investidos quase R$ 2 bilhões, segundo o advogado da empresa, Carlos Deneszczuk.

A corrida por resgates pressionou o caixa das empresas financiadas e comprometeu o fluxo de pagamento de dividendos e obrigações da Fictor no mercado de capitais.

A saída para administrar a crise de liquidez foi a recuperação judicial, autorizada pela Justica na terça-feira (2), envolvendo a Fictor Holding e a Fictor Invest. A empresa afirma que pretende quitar os débitos - superiores a R$ 4 bilhões - sem descontos, em um prazo de até cinco anos.

Como funcionam os braços financeiros de grandes grupos

O caso da Fictor não é isolado. É comum que grupos empresariais mantenham braços financeiros próprios como forma de facilitar a captação de recursos, reduzir o custo de financiamento e acessar diretamente investidores fora do sistema bancário tradicional. “Para muitas, o braço financeiro é usado como ‘verniz de legalidade’, criando bases grandes de clientes para justificar captações elevadas”, explica Hugo Queiroz, sócio e diretor de Corporate Advisory da L4 Capital.

No caso da Fictor, a estrutura envolvia a captação junto a investidores e a formação de sociedades em conta de participação para investir em diferentes negócios. A crise de liquidez teria afetado o pagamento de dividendos aos sócios desses veículos, que não contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Para Queiroz, a magnitude e a complexidade dessas operações avançaram muito mais rápido do que a capacidade de acompanhamento da CVM, do Banco Central e dos mecanismos de autorregulação. “Esse descompasso explica o aumento recente de operações problemáticas e fraudulentas no mercado”, afirma.

Modelo da Fictor era baseado em SCPs

Mais do que episódios isolados, os casos Master e Fictor revelam um modelo de financiamento que se consolidou no Brasil na última década. Com a retração do crédito público e subsidiado, empresas passaram a buscar recursos em estruturas privadas cada vez mais complexas e alavancadas, como fundos de investimento, securitizadoras e sociedades em conta de participação.

A partir de 2015 e 2016, após o esgotamento da política econômica do governo Dilma Rousseff (PT), um cenário de forte restrição fiscal combinado à reação institucional aos escândalos revelados pela Lava Jato levou à retração do crédito subsidiado, depois de anos de expansão acelerada.