Condenações por corrupção e o desafio à confiança do eleitor acreano
Debates sobre candidaturas de políticos condenados reacendem discussões sobre a Lei da Ficha Limpa, a confiança nas instituições e a responsabilidade do voto nas eleições de 2026.
Da Redação | 01/07/2026
Capas dos principais jornais de circulação nacional no país no dia em que as cédulas de real começaram a circular. (Foto: Arte Congresso em Foco)
Nesta quarta-feira (1º), o real
completa 32 anos em circulação. Em 1º de julho de 1994, a nova moeda chegou ao
bolso dos brasileiros sob expectativa, desconfiança e pressão contra aumentos
de preços. Mas, nos jornais daquele dia, o nascimento do real dividia espaço
com a Copa do Mundo, o doping de Diego Maradona e a campanha presidencial.
As manchetes mostravam um país
entre esperança e cautela. A Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo
destacaram: "Real já vive desafio dos preços". O Globo tratou a
estreia como guerra econômica: "Começa a guerra real versus
inflação". Já o Jornal do Brasil apostou na promessa oficial:
"Governo quer inflação zero em agosto".
Na véspera da estreia, destacava
O Globo, Itamar Franco foi à televisão pedir vigilância da população contra
abusos. Disse que o governo usaria "todos os recursos
constitucionais" para preservar o plano e não permitiria que
"interesses particulares" se sobrepusessem aos direitos da
coletividade.
Rubens Ricupero, então ministro
da Fazenda, também adotou tom duro. "Quem tentar passar preços abusivos
vai quebrar", afirmou ao jornal. O assessor especial para Preços do
Ministério da Fazenda, Milton Dallari, resumiu a preocupação do governo:
"Nosso grande problema será o comércio. Vamos ficar atentos".
Ainda de acordo com O Globo
daquele dia, a MP da nova moeda havia sido editada em 30 de junho. Embora
bastassem as assinaturas de Itamar, Ricupero e do ministro da Justiça,
Alexandre Dupeyrat, todos os ministros subscreveram o texto, num gesto político
de compromisso com o plano.
Itamar e Ricupero trocam dinheiro
No primeiro dia da moeda, Folha e
O Globo registraram a ida de Itamar e Ricupero a agências da Caixa Econômica
Federal e do Banco do Brasil no Palácio do Planalto para trocar cruzeiros reais
por reais. A cena virou símbolo da estreia do dinheiro novo.
Segundo a Folha, Itamar recebeu
R$ 80 ao trocar CR$ 220 mil. Ricupero trocou R$ 43,70 e brincou: "Meu
salário é menor". Ao receber as primeiras notas, comparou-as às de dólar:
"Só não é verdinha. É grená".
O presidente posou para fotos com
as cédulas e disse sentir "uma sensação boa" de ter no bolso uma
moeda forte. Também reclamou quando recebeu dinheiro a menos na Caixa. "O
troco estava errado", insistiu, segundo O Globo.
A cena misturava solenidade,
marketing e improviso. Itamar admitiu que era "uma grande
publicidade". Ricupero entrou no tom e disse que cobraria royalties, com
"cachê" doado à campanha contra a fome.
Faltava moeda, sobrava confusão
Nas ruas, a estreia foi mais
confusa. A Folha registrou falta de moedas para troco no comércio da periferia
de São Paulo. Bancos limitaram a distribuição, supermercados receberam menos
moedas do que pediram e lojistas continuaram operando com cruzeiros reais para
evitar problemas nos caixas.
O jornal também mostrou
consumidores tentando usar as novas notas na madrugada, sem sucesso. Havia
caixas eletrônicos abastecidos, mas bares, drogarias, lojas e ônibus ainda não
estavam preparados para aceitar reais ou devolver troco.
Um funcionário público sacou R$
10 depois da meia-noite e tentou usar a nota numa drogaria da Avenida Paulista.
Desistiu porque o caixa não tinha troco em real. Depois tentou pagar o ônibus,
mas o cobrador disse que ainda não sabia fazer a conversão. "Não recebi
orientação nenhuma", afirmou à Folha na época.
As notas ganharam apelidos.
Segundo reportagem da Folha, a cédula de R$ 100, com a imagem da garoupa, virou
"tubarão" para alguns consumidores. Um dono de banca no Viaduto do
Chá brincou que era nota "de peixe graúdo, de quem tem muito dinheiro".
Maradona também era manchete
Enquanto o Brasil aprendia a usar
a nova moeda, a Copa do Mundo ocupava as páginas esportivas. Na Folha de
S.Paulo de 1º de julho, o afastamento de Diego Maradona tinha peso de manchete.
O jornal informava que o craque argentino fora suspenso por tempo indeterminado
pela Fifa após exame positivo para substâncias proibidas.
O "coquetel" de drogas
que tirou Maradona da Copa disputava atenção com a chegada do real. O contraste
ajudava a definir o clima do dia: o Brasil tentava reconstruir a confiança no
próprio dinheiro enquanto acompanhava a queda de um dos maiores personagens do
futebol mundial.
A eleição entrou na conta
A sucessão presidencial também
estava nos jornais. Em 1994, o real não era só política econômica. Era ativo
eleitoral. Fernando Henrique Cardoso, que deixara a Fazenda para disputar o
Planalto, passou a ser identificado como o rosto da estabilização.
Na véspera da circulação da
moeda, segundo O Globo, FHC disse que a oposição dos adversários poderia
transformar a eleição numa disputa entre "real e anti-real". Lula
reagiu pelo lado social. No Rio, desafiou Itamar a ir ao supermercado com R$ 70
para comprar comida. "Assim, ele perceberia o estado de miséria em que
vive o povo brasileiro", afirmou.
Os jornais também registravam
ações de parlamentares do PT e do PDT contra a associação entre o plano e a
candidatura de FHC. Havia questionamentos sobre uso da máquina administrativa e
até sobre a assinatura do ex-ministro nas cédulas. Aliados tucanos viam as
ações como sinal de temor da oposição diante de um possível sucesso da moeda.
O que os jornais revelavam
A cobertura de 1º de julho de
1994 mostra que o real nasceu sob tensão. As manchetes falavam em desafio dos
preços, guerra contra a inflação, fiscalização, contratos, falta de troco e
risco de abuso. Não era uma celebração sem dúvidas. Era uma aposta.
Trinta e dois anos depois, as
reportagens daquele dia ajudam a recolocar o real em seu ambiente original. A
moeda nasceu entre solenidade oficial e confusão de balcão, entre discurso
presidencial e troco errado, entre disputa eleitoral e escândalo esportivo. Foi
nesse noticiário fragmentado que o dinheiro brasileiro mudou.