Se o boi mudou, por que o pasto continua o mesmo?

Embrapa aponta perda de produtividade com capins ultrapassados

Da Redação | 13/09/2026

Se o boi mudou, por que o pasto continua o mesmo?

Pastos com qualidade sinal de boi bom (Foto divulgação)

Enquanto a pecuária moderna coloca animais mais pesados no frigorífico e reduz a idade de abate, 80% das cultivares de forrageiras utilizadas no Brasil ainda são tecnologias consideradas defasadas; novas opções podem elevar a produção e acrescentar mais de R$ 3 mil por hectare ao ano

A pecuária brasileira mudou profundamente nas últimas décadas. O animal ficou mais precoce, pesado e eficiente. A genética avançou, os índices produtivos melhoraram e novas tecnologias chegaram às fazendas. Mas uma parte fundamental desse sistema nem sempre acompanhou a mesma velocidade:

o pasto. Esse foi o ponto levantado pelo pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados (DF), durante a palestra “Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?”, realizada no painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte”, durante a 34ª Expoabra, em Brasília.

“O boi de hoje não é o mesmo animal de 40, 50 anos atrás. E o segundo ponto é que quando falamos de forrageira e pastagem, estamos falando de tecnologia de ponta.”

A discussão ganha ainda mais importância diante do tamanho da pecuária baseada em pastagens no país. O Brasil possui 160,5 milhões de hectares de pastagens, dos quais 62,7 milhões estão no Cerrado.

Além disso, dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) apresentados pelo pesquisador mostram que 80,14% dos bovinos abatidos no Brasil no ano passado foram terminados a pasto.

Para Ayres, essa característica diferencia a carne brasileira e deveria ser mais valorizada internacionalmente.

Boi moderno, pasto do século passado

O contraste aparece quando se observa a evolução genética dos animais e das próprias forrageiras utilizadas nas propriedades.

Sanidade, genética, reprodução, nutrição e gestão estão entre os principais pilares da atividade. Entretanto, segundo Ayres, enquanto muitos produtores investem na evolução genética do rebanho, a escolha da cultivar forrageira ainda costuma ser fortemente influenciada pelo preço da semente.

O problema é que esse componente representa apenas cerca de 10% do custo total de implantação da pastagem, considerando todas as operações.

Segundo o pesquisador, 80% das cultivares de forrageiras utilizadas atualmente pela pecuária brasileira são tecnologias defasadas, muitas desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990.

Na prática, animais selecionados para produzir mais podem continuar sendo alimentados sobre uma base forrageira desenvolvida para uma pecuária muito diferente da atual.