Enquanto a pecuária moderna
coloca animais mais pesados no frigorífico e reduz a idade de abate, 80% das
cultivares de forrageiras utilizadas no Brasil ainda são tecnologias
consideradas defasadas; novas opções podem elevar a produção e acrescentar mais
de R$ 3 mil por hectare ao ano
A pecuária brasileira mudou
profundamente nas últimas décadas. O animal ficou mais precoce, pesado e
eficiente. A genética avançou, os índices produtivos melhoraram e novas
tecnologias chegaram às fazendas. Mas uma parte fundamental desse sistema nem
sempre acompanhou a mesma velocidade:
o pasto. Esse foi o ponto
levantado pelo pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados (DF), durante a
palestra “Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?”, realizada
no painel “Desafios e oportunidades na pecuária de corte”, durante a 34ª
Expoabra, em Brasília.
“O boi de hoje não é o mesmo
animal de 40, 50 anos atrás. E o segundo ponto é que quando falamos de
forrageira e pastagem, estamos falando de tecnologia de ponta.”
A discussão ganha ainda mais
importância diante do tamanho da pecuária baseada em pastagens no país. O
Brasil possui 160,5 milhões de hectares de pastagens, dos quais 62,7 milhões
estão no Cerrado.
Além disso, dados da Associação
Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) apresentados pelo
pesquisador mostram que 80,14% dos bovinos abatidos no Brasil no ano passado
foram terminados a pasto.
Para Ayres, essa característica
diferencia a carne brasileira e deveria ser mais valorizada internacionalmente.
Boi moderno, pasto do século
passado
O contraste aparece quando se
observa a evolução genética dos animais e das próprias forrageiras utilizadas
nas propriedades.
Sanidade, genética, reprodução,
nutrição e gestão estão entre os principais pilares da atividade. Entretanto,
segundo Ayres, enquanto muitos produtores investem na evolução genética do
rebanho, a escolha da cultivar forrageira ainda costuma ser fortemente
influenciada pelo preço da semente.
O problema é que esse componente
representa apenas cerca de 10% do custo total de implantação da pastagem,
considerando todas as operações.
Segundo o pesquisador, 80% das
cultivares de forrageiras utilizadas atualmente pela pecuária brasileira são
tecnologias defasadas, muitas desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990.
Na prática, animais selecionados
para produzir mais podem continuar sendo alimentados sobre uma base forrageira
desenvolvida para uma pecuária muito diferente da atual.