O eleitor brasileiro está elegendo a corrupção?

Quando acusações, condenações e escândalos deixam de afastar candidatos das urnas, a sociedade precisa discutir até onde chegou à tolerância com a corrupção na política

Por: Edilberto Araújo | 11/08/2026

O eleitor brasileiro está elegendo a corrupção?

O eleitor brasileiro precisa mudar essa realidade já em 2026 (Foto: Radar News Diário)

EDITORIAL

Existe uma pergunta que precisa ser feita com coragem às vésperas das eleições de 2026: o eleitor brasileiro está se tornando tolerante demais com políticos envolvidos em denúncias, investigações e até condenações por corrupção?

A impressão que surge ao observar o cenário político nacional é preocupante. Em diferentes regiões do país, nomes envolvidos em escândalos, investigações ou processos continuam mantendo força eleitoral e capacidade de mobilizar milhares de eleitores.

Na Bahia, por exemplo, o cenário político envolve nomes de grande expressão nacional, como Rui Costa e Jaques Wagner. Wagner foi intimado pela Polícia Federal para prestar depoimento no âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master, enquanto nega qualquer irregularidade.

No Acre, o caso de Gladson Cameli apresenta uma situação ainda mais grave. Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça condenou o ex-governador a 25 anos e nove meses de prisão por crimes que incluem organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações.

Mesmo diante de situações dessa natureza, a política continua encontrando espaço para que nomes controversos permaneçam competitivos eleitoralmente.

E aqui está o ponto central desta discussão: o problema não está somente nos políticos. Está também na relação do eleitor com a política.

Quando o eleitor passa a defender seu candidato independentemente das denúncias que pesam contra ele, a corrupção deixa de ser apenas um problema das instituições e passa a revelar uma crise de valores dentro da própria sociedade.

É comum ouvir o eleitor dizer: “Eu sei que ele tem problemas, mas voto nele mesmo assim”.

Esse comportamento é perigoso.

Não se trata de afirmar que todo eleitor que vota em determinado político apoia corrupção. Muitas pessoas votam por identificação ideológica, por histórico político, por benefícios percebidos em determinada gestão ou simplesmente por rejeição ao adversário.

Mas existe uma parcela do eleitorado que parece adotar uma lógica cada vez mais preocupante: se o político é do meu grupo, suas acusações são relativizadas; se é adversário, qualquer denúncia passa a ser tratada como prova definitiva de culpa.

Essa seletividade destrói a capacidade de fiscalização do cidadão.

O Brasil não precisa de eleitor apaixonado por político. Precisa de eleitor apaixonado pela verdade, pela ética e pelo dinheiro público.

Também é preciso cuidado com generalizações. Não se pode afirmar que a corrupção está literalmente no “DNA” do brasileiro. Corrupção não é característica genética de um povo. O que existe é uma cultura de tolerância, em determinados setores da sociedade, com práticas políticas que deveriam provocar indignação independentemente do partido ou do candidato.

O eleitor precisa aprender a separar amizade, ideologia e fanatismo político da responsabilidade de escolher quem administrará o dinheiro público.

O perigo da normalização

Quando uma condenação, uma investigação ou uma denúncia deixa de produzir indignação e passa a ser utilizada apenas como arma contra o adversário, algo está profundamente errado.

O resultado é a normalização do problema.

O político investigado diz que é perseguição. O político acusado afirma que é ataque eleitoral. O político condenado tenta reconstruir sua carreira. E parte do eleitorado transforma tudo isso em disputa entre “o meu lado” e “o lado deles”.

Enquanto isso, quem paga a conta é o cidadão.

É o trabalhador que paga impostos. É a família que espera atendimento médico. É o agricultor que precisa de estrada. É o estudante que depende de uma escola funcionando. É o cidadão que espera segurança pública.

Cada real desviado ou utilizado de maneira irregular representa uma oportunidade perdida para a população.

E o crime organizado?

O avanço do crime organizado acrescenta ainda mais preocupação a esse cenário.

Em junho de 2026, os Estados Unidos formalizaram a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.

Isso demonstra a dimensão internacional que o crime organizado brasileiro alcançou.

O problema, portanto, não pode ser tratado apenas como uma disputa entre esquerda e direita, situação e oposição. O Brasil precisa discutir seriamente a relação entre corrupção, fragilidade institucional, lavagem de dinheiro, organizações criminosas e poder político.

A responsabilidade também está nas urnas

Não existe democracia saudável sem eleitor responsável.

O político pode prometer, discursar, fazer campanha e apresentar milhares de justificativas. Mas quem coloca o político no poder é o eleitor.

Por isso, a pergunta que precisa acompanhar cada voto é simples:

Se eu condeno a corrupção quando ela é praticada pelo meu adversário, por que deveria aceitá-la quando envolve alguém do meu próprio grupo?

O Brasil não será transformado apenas por novas leis ou por operações policiais.

A mudança também precisa acontecer dentro da consciência de cada eleitor.

Enquanto parte da população continuar tratando político como ídolo, defendendo-o a qualquer custo e relativizando denúncias apenas porque pertence ao seu grupo político, o país continuará preso ao mesmo ciclo.

Político não é dono do eleitor. É empregado da população.

E empregado que perde a confiança precisa responder perante a Justiça e, principalmente, perante as urnas.

A democracia não exige que o eleitor escolha entre um corrupto de esquerda ou um corrupto de direita.

Exige que o cidadão tenha coragem de rejeitar a corrupção venha de onde vier.

Escrito: Por Edilberto Araújo