Existe uma pergunta que precisa
ser feita com coragem às vésperas das eleições de 2026: o eleitor brasileiro
está se tornando tolerante demais com políticos envolvidos em denúncias,
investigações e até condenações por corrupção?
A impressão que surge ao observar
o cenário político nacional é preocupante. Em diferentes regiões do país, nomes
envolvidos em escândalos, investigações ou processos continuam mantendo força
eleitoral e capacidade de mobilizar milhares de eleitores.
Na Bahia, por exemplo, o cenário
político envolve nomes de grande expressão nacional, como Rui Costa e Jaques
Wagner. Wagner foi intimado pela Polícia Federal para prestar depoimento no
âmbito das investigações relacionadas ao Banco Master, enquanto nega qualquer
irregularidade.
No Acre, o caso de Gladson Cameli
apresenta uma situação ainda mais grave. Em maio de 2026, o Superior Tribunal
de Justiça condenou o ex-governador a 25 anos e nove meses de prisão por crimes
que incluem organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem
de dinheiro e fraudes em licitações.
Mesmo diante de situações dessa
natureza, a política continua encontrando espaço para que nomes controversos
permaneçam competitivos eleitoralmente.
E aqui está o ponto central desta
discussão: o problema não está somente nos políticos. Está também na relação do
eleitor com a política.
Quando o eleitor passa a defender
seu candidato independentemente das denúncias que pesam contra ele, a corrupção
deixa de ser apenas um problema das instituições e passa a revelar uma crise de
valores dentro da própria sociedade.
É comum ouvir o eleitor dizer:
“Eu sei que ele tem problemas, mas voto nele mesmo assim”.
Esse comportamento é perigoso.
Não se trata de afirmar que todo
eleitor que vota em determinado político apoia corrupção. Muitas pessoas votam
por identificação ideológica, por histórico político, por benefícios percebidos
em determinada gestão ou simplesmente por rejeição ao adversário.
Mas existe uma parcela do
eleitorado que parece adotar uma lógica cada vez mais preocupante: se o
político é do meu grupo, suas acusações são relativizadas; se é adversário,
qualquer denúncia passa a ser tratada como prova definitiva de culpa.
Essa seletividade destrói a
capacidade de fiscalização do cidadão.
O Brasil não precisa de eleitor
apaixonado por político. Precisa de eleitor apaixonado pela verdade, pela ética
e pelo dinheiro público.
Também é preciso cuidado com
generalizações. Não se pode afirmar que a corrupção está literalmente no “DNA”
do brasileiro. Corrupção não é característica genética de um povo. O que existe
é uma cultura de tolerância, em determinados setores da sociedade, com práticas
políticas que deveriam provocar indignação independentemente do partido ou do
candidato.
O eleitor precisa aprender a
separar amizade, ideologia e fanatismo político da responsabilidade de escolher
quem administrará o dinheiro público.
O perigo da normalização
Quando uma condenação, uma
investigação ou uma denúncia deixa de produzir indignação e passa a ser
utilizada apenas como arma contra o adversário, algo está profundamente errado.
O resultado é a normalização do
problema.
O político investigado diz que é
perseguição. O político acusado afirma que é ataque eleitoral. O político
condenado tenta reconstruir sua carreira. E parte do eleitorado transforma tudo
isso em disputa entre “o meu lado” e “o lado deles”.
Enquanto isso, quem paga a conta
é o cidadão.
É o trabalhador que paga
impostos. É a família que espera atendimento médico. É o agricultor que precisa
de estrada. É o estudante que depende de uma escola funcionando. É o cidadão
que espera segurança pública.
Cada real desviado ou utilizado
de maneira irregular representa uma oportunidade perdida para a população.
E o crime organizado?
O avanço do crime organizado
acrescenta ainda mais preocupação a esse cenário.
Em junho de 2026, os Estados
Unidos formalizaram a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do
Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras.
Isso demonstra a dimensão
internacional que o crime organizado brasileiro alcançou.
O problema, portanto, não pode
ser tratado apenas como uma disputa entre esquerda e direita, situação e
oposição. O Brasil precisa discutir seriamente a relação entre corrupção,
fragilidade institucional, lavagem de dinheiro, organizações criminosas e poder
político.
A responsabilidade também está
nas urnas
Não existe democracia saudável
sem eleitor responsável.
O político pode prometer,
discursar, fazer campanha e apresentar milhares de justificativas. Mas quem
coloca o político no poder é o eleitor.
Por isso, a pergunta que precisa
acompanhar cada voto é simples:
Se eu condeno a corrupção quando
ela é praticada pelo meu adversário, por que deveria aceitá-la quando envolve
alguém do meu próprio grupo?
O Brasil não será transformado
apenas por novas leis ou por operações policiais.
A mudança também precisa
acontecer dentro da consciência de cada eleitor.
Enquanto parte da população
continuar tratando político como ídolo, defendendo-o a qualquer custo e
relativizando denúncias apenas porque pertence ao seu grupo político, o país
continuará preso ao mesmo ciclo.
Político não é dono do eleitor. É
empregado da população.
E empregado que perde a confiança
precisa responder perante a Justiça e, principalmente, perante as urnas.
A democracia não exige que o
eleitor escolha entre um corrupto de esquerda ou um corrupto de direita.
Exige que o cidadão tenha coragem
de rejeitar a corrupção venha de onde vier.
Escrito: Por Edilberto Araújo