A ascensão de Alexandre de Moraes
à presidência do Supremo Tribunal Federal (STF), prevista para 2027, pode
transformar uma crise de confiança já existente em um problema institucional
sem precedentes. Caso assuma a presidência sem um esclarecimento claro e
convincente das acusações que pesam sobre seu nome, Moraes poderá impor ao STF
dois anos de desgaste institucional contínuo, com reflexos sobre a
credibilidade, a autoridade e a legitimidade da Corte.
Formalmente, a escolha do
presidente do STF ocorre por eleição entre os próprios ministros, conforme
prevê o regimento interno da Corte. Na prática, porém, o tribunal segue há
décadas uma tradição de sucessão baseada na antiguidade entre os integrantes que
ainda não ocuparam o cargo. O modelo busca assegurar uma alternância previsível
no comando da instituição e reduzir disputas internas por poder.
Nesse contexto, uma eventual
ascensão de Moraes à presidência envolve menos obstáculos jurídicos do que
considerações políticas e institucionais.
Na última terça-feira (15), o
julgamento que analisa a possível abertura de um inquérito contra Alexandre de
Moraes foi suspenso após um pedido de vista do ministro Flávio Dino. O caso tem
como base um relatório preliminar da Polícia Federal que aponta indícios de
favorecimento ao banqueiro Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, por meio
do compartilhamento de informações relacionadas a processos sigilosos. O
documento também menciona um contrato de R$ 131 milhões firmado com o
escritório da esposa do ministro, valor considerado atípico pelos
investigadores.
A sessão foi marcada por tumulto
entre os ministros, acusações mútuas e manobras para dificultar o andamento do
julgamento, expondo publicamente as divisões internas da Corte em um momento de
forte desgaste institucional. Com o pedido de vista, o julgamento ficará
suspenso por até 90 dias, reduzindo ainda mais o tempo disponível para que o
Supremo dê uma resposta definitiva ao caso antes da sucessão presidencial
prevista para setembro de 2027.
A proximidade entre o calendário
da sucessão e a tramitação do processo torna imprescindível um desfecho para as
acusações antes da troca de comando da Corte. "Eu acho que a gente vai ver
um tribunal absolutamente desmoralizado se Alexandre de Moraes assumir a
presidência neste cenário", afirma o professor de Direito Constitucional
David Sobreira, mestre em Direito por Harvard.
"Eu temo pela existência do
tribunal não enquanto instituição física, mas pela existência do tribunal
enquanto a instituição que a gente conhece hoje, com seus poderes, competências
e atribuições", complementa Sobreira.
Sem "depuração
pública", STF corre risco de aprofundar crise de legitimidade
O alerta do jurista decorre do
peso institucional da função. Em regra, o presidente do STF não possui mais
poder de voto do que os demais ministros nem pode interferir na independência
de seus colegas ou nas relatorias distribuídas à Corte. No entanto, cabe a ele
definir quais processos serão levados ao plenário, estabelecer prioridades na
agenda institucional do tribunal, conduzir o relacionamento com o Congresso e o
Executivo e exercer a presidência do Conselho Nacional de Justiça.