Senador ameaçado após CPI o que o STF esconde do Brasil?
Senador denuncia ameaças após CPI e levanta questionamentos: o que está sendo escondido do Brasil?
Por Deltan Dallagnol | 13/04/2026
Que vergonha vive parte dos ministros do STF ((Foto: Nelson Jr./SCO/STF))
O ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), Luiz Fux, soltou nesta semana uma das frases mais devastadoras
já ditas publicamente no plenário do Supremo contra seus próprios colegas,
quase tão épicas quanto o icônico monólogo do ex-ministro Luís Roberto Barroso
contra Gilmar Mendes, em que acusou o hoje decano do Supremo de ser uma
"pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de
psicopatia".
Primeiro, o contexto. O Rio de
Janeiro vive um caos político sem precedentes. O ex-governador Cláudio Castro
renunciou ao cargo para concorrer ao Senado, em meio ao julgamento no Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) que resultou em sua cassação. O vice-governador Thiago
Pampolha foi indicado para o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e deixou o
cargo em 2025. E o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, está
licenciado depois de ter sido preso pela Polícia Federal (PF) por vazar
informações sigilosas de uma operação contra o Comando Vermelho (CV).
O nome dessa crise, no direito, é
"dupla vacância": o estado está sem vice-governador e sem presidente
da Assembleia, que são os dois nomes na linha de sucessão do Executivo. Por
conta disso, quem governa o Rio hoje é o presidente do Tribunal de Justiça do
Rio de Janeiro (TJRJ), o desembargador Ricardo Couto.
Esse imbróglio foi parar no STF
porque as forças políticas divergem sobre o que deveria acontecer: eleição para
governador direta, em que o povo vota, ou eleição indireta, em que votam os
deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Em
pleno julgamento, Gilmar Mendes achou bom vazar informações sigilosas de
investigação da PF sobre crimes justamente na Alerj, que poderá decidir quem
será o próximo governador até o fim do ano.
Disse Gilmar: “Nós estamos
vivendo esses episódios a toda hora. Presidente da Assembleia do Rio de Janeiro
preso. Eu conversava com o diretor-geral da Polícia Federal, que dizia que 32
ou 34 parlamentares da Assembleia recebem mesadas do jogo do bicho. Deus tenha
piedade do Rio de Janeiro. Isso não pode ser causa de decidir, mas é preciso
ter isso como motivo”, como se estivesse comentando o clima ou a última partida
do Brasileirão e não informações sigilosas de investigações em curso da PF.
Esse é o mesmo Gilmar Mendes que
deu chilique no julgamento da prorrogação da CPMI do INSS contra vazamentos
ilegais. O mesmo Gilmar que exigiu de André Mendonça fundamentação analítica
sobre vazamentos no caso Vorcaro. O mesmo Gilmar que escreveu um voto inteiro
sobre publicidade opressiva e pressão midiática. Esse mesmo Gilmar acabou de
vazar informação sigilosa de investigação da PF em sessão pública do Supremo.
E Fux não deixou barato. Como
faixa preta de jiu-jitsu, usou a força do adversário contra ele mesmo e soltou
frase que foi para enterrar Gilmar e seus aliados: “Eu sou carioca de nascença
e verifiquei que houve uma manifestação de profundo descrédito em relação ao
Rio de Janeiro, de forma generalizada. (...) Há bons políticos no Estado do Rio
de Janeiro, que representam o Estado na Câmara Federal. São excelentes
políticos. De sorte que, se esses políticos tiverem que ir para o inferno, eles
vão acompanhados de altas autoridades.”
Fux disse tudo. O maior problema
do crime no Brasil não está só no Rio de Janeiro, embora a criminalidade lá
seja um problema gravíssimo. O pior crime de todos está em Brasília, em meio a
altas autoridades envolvidas no caso INSS, no caso Master, na sabotagem da Lava
Jato. A frase de Fux tinha endereço certo: as altas autoridades com quem ele
divide o plenário, envolvidas em grandes escândalos. Aquelas que apontam um
dedo para o Rio de Janeiro ao mesmo tempo em que têm vários dedos apontados
para si. Fux escancarou o show supremo de hipocrisia a que assistimos todos os
dias.
E Fux sabe exatamente quem são
essas altas autoridades. Trabalha ao lado delas todos os dias. Vota com elas,
delibera com elas, assina acórdãos com elas. E agora avisou publicamente: se os
políticos do Rio vão para o inferno pelos seus crimes, não vão sozinhos. Vão
acompanhados.
Durma com essa, ministro Gilmar.