Atuação de Dino para melar julgamento de Moraes cola imagem de Lula ao escândalo do STF

Flávio Dino foi ministro da Justiça de Lula antes de ser indicado pelo presidente ao STF; pedido de vista adiou julgamento sobre Moraes.

Da Redação | 17/09/2026

Atuação de Dino para melar julgamento de Moraes cola imagem de Lula ao escândalo do STF

Para defender Lula Dino é capaz de tudo (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

O pedido de vista do ministro Flávio Dino, que postergou no Supremo Tribunal Federal (STF) o julgamento de Alexandre de Moraes por corrupção, aproximou ainda mais a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva do escândalo. Chicanas jurídicas de Dino e Gilmar Mendes na sessão de terça-feira (15) empurram para depois das eleições o julgamento mais importante do STF.

"Se o plenário tivesse autorizado a investigação agora seria um choque agudo, mas até menos corrosivo para o governo no médio prazo, porque permitiria a Lula dizer que 'o sistema apura até quem lhe é próximo'. Mas o pedido de vista de Dino faz o contrário: mantém o tema aberto por até 90 dias. Pra uma campanha que queria mudar de assunto, esse arrasto sai mais caro", avalia a analista Yolanda Tolentino, especialista em política e gestão estratégica internacional pela FAAP e UFRJ.

Enquanto não houver uma definição sobre a eventual investigação de Moraes, Lula permanece politicamente associado ao episódio, seja pelo vínculo entre o ministro Dino e o governo que o indicou, seja pela possibilidade de a oposição explorar a atuação de Dino como exemplo de uma suposta proteção a Moraes.

Durante o julgamento, Dino defendeu que os processos envolvendo Moraes e André Mendonça fossem analisados conjuntamente e interrompeu a sessão com um pedido de vista antes que o plenário concluísse a análise da questão. Pedir vista é o recurso usado por um magistrado quando alega não ter tido tempo para analisar todo o material do processo.

Como justificativa, Dino afirmou que o acirramento do debate no plenário levaria o caso a se estender por mais sessões, sem que chegassem a uma definição.

A situação, no entanto, cria um problema adicional para o presidente Lula. A permanência do escândalo no STF no centro do debate público dificulta que o governo desloque a agenda eleitoral para temas de interesse do Planalto. A crise envolvendo Moraes, Banco Master e as disputas internas da Corte oferece à oposição uma pauta capaz de manter Lula na defensiva durante a campanha.

O pedido de vista, por si só, não significa que Dino tenha defendido que Moraes não cometeu crime. Também não é possível dizer no momento se a manobra de não decidir nada foi coordenada com o Palácio do Planalto. Mas o efeito político é objetivo: uma decisão que poderia definir imediatamente se um ministro do STF seria alvo de investigação foi adiada, aumentando a sensação de impunidade de autoridades suspeitas de corrupção e mantendo a crise aberta.

O professor do Instituto de Ciência Política (Ipol) da Universidade de Brasília (UNB) Ricardo Caldas sintetiza a ligação de Lula e Dino. O ministro atua como um aliado militante do governo, retribuindo sua nomeação ao proteger figuras ligadas ao presidente. "A postura do ministro se assemelha mais à de um advogado do governo do que à de um magistrado isento", compara Caldas.