O Voto Comprometido e o Preço da Impunidade: Até Quando o Brasil e o Acre Vão Sustentar Corruptos?
A inversão de valores na urna reflete o colapso dos serviços básicos, deixando o cidadão de bem refém de políticos condenados e do crime organizado.
Congresso em foco | 11/06/2026
Agora é saber se o molusco não veta (Carlos Moura/Agência Senado)
O Senado aprovou na última quarta-feira (10) o projeto de
lei que cria uma linha especial de refinanciamento para produtores rurais
endividados. A proposta autoriza o uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal,
de fundos constitucionais e de outras fontes para renegociar débitos do setor
agropecuário.
Considerado uma "pauta-bomba" pela equipe
econômica, o projeto teve apoio da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e
foi aprovado sem acordo com o Ministério da Fazenda. Como sofreu alterações no
Senado, o texto voltará à Câmara dos Deputados.
O projeto original é do deputado Domingos Neto (PSD-CE) e
tinha como foco produtores afetados por eventos climáticos, como as enchentes
no Rio Grande do Sul em 2024. No Senado, o relator, Renan Calheiros (MDB-AL),
ampliou o alcance da proposta para incluir também prejuízos provocados por
impactos econômicos negativos decorrentes de conflitos geopolíticos
internacionais, como as guerras na Ucrânia e no Irã.
Principais pontos do projeto:
Cria uma linha especial de financiamento para produtores
rurais, associações, cooperativas de produção e condomínios rurais;
Autoriza o uso de recursos do Fundo Social do Pré-Sal, de
fundos constitucionais e de outras fontes definidas pelo Executivo;
Permite renegociar dívidas de crédito rural, empréstimos e
Cédulas de Produto Rural contratadas até 31 de dezembro de 2025;
Segundo a FPA, o texto final também alcança operações
renegociadas ou prorrogadas até 30 de abril de 2026, desde que estejam
adimplentes na contratação;
Estabelece limite de R$ 10 milhões por beneficiário e de R$
50 milhões por associação, cooperativa ou condomínio;
Prevê prazo de pagamento de até dez anos, com três anos de
carência;
Define juros de 3,5% ao ano para agricultores do Pronaf e
pequenos produtores, 5,5% para produtores do Pronamp e médios produtores, e
7,5% para os demais;
Autoriza instituições financeiras a prorrogarem por 180 dias
o vencimento de parcelas de principal e juros;
Suspende, nesse período, cobranças administrativas,
execuções judiciais e extrajudiciais, inscrições em cadastros negativos e
prazos processuais;
Determina que os débitos possam ser recalculados sem multa,
mora e outros encargos por inadimplência.
Fundos do pré-sal e constitucionais
Pelo texto aprovado, o Executivo poderá usar receitas
correntes do Fundo Social de 2026 e 2027, superávits financeiros apurados no
fim de 2025 e 2026, superávits de outros fundos supervisionados pelo Ministério
da Fazenda e outras fontes definidas pelo governo.
Também poderão ser usados, dentro de suas disponibilidades e
áreas de atuação, o Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO), o
Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), o Fundo Constitucional
de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) e o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira
(Funcafé).
Caso os recursos desses fundos se esgotem nas respectivas
regiões, o Fundo Social poderá assumir a implementação das medidas e os custos
correspondentes. Renan Calheiros afirmou que não haverá prejuízo aos recursos
do Fundo Social destinados a saúde e educação.
Governo prevê impacto de R$ 140 bi
A equipe econômica estima que a proposta pode ter impacto
fiscal de R$ 140 bilhões em dez anos. Na véspera, o ministro da Fazenda, Dario
Durigan, havia citado um custo superior a R$ 800 bilhões em 13 anos, mas
reduziu a projeção após mudanças feitas no texto.
"A estimativa que eu tenho é de que, conforme o texto
estava sendo elaborado no Senado, a se confirmar, isso abrange um investimento
de R$ 200 bilhões em operação, cujo custo para o Tesouro ficou em 70%, o que dá
um pouco R$ 140 bilhões para o Tesouro Nacional", declarou o ministro um
dia antes da votação.
O governo avalia vetar pontos da proposta e não descarta
recorrer ao Supremo Tribunal Federal caso eventual veto seja derrubado pelo
Congresso.
A Fazenda também diverge do Senado sobre o alcance da
renegociação. Parlamentares estimam que o projeto permitirá renegociar entre R$
170 bilhões e R$ 180 bilhões em débitos. A equipe econômica calcula que o
volume potencialmente abrangido pode chegar a R$ 1,39 trilhão, considerando
operações de crédito rural, Cédulas de Produto Rural, contratos renegociados e
financiamentos em atraso.
A proposta defendida pelo governo previa condições menos
favoráveis: juros de 6% ao ano para beneficiários do Pronaf, 8% para produtores
enquadrados no Pronamp e 12% para os demais. O Senado aprovou taxas menores:
3,5%, 5,5% e 7,5%, respectivamente.
Votação sem acordo
A votação ocorreu após semanas de negociação entre governo e
Congresso. Renan Calheiros disse que ainda havia impasses com a área técnica da
Fazenda, apesar de reuniões com Durigan.
"O ministro [foi] sempre muito cordato, receptivo, mas
nós não tivemos com a área técnica do ministério a mesma facilidade que tivemos
na discussão com o ministro Dario Durigan", afirmou Renan no Plenário.
"Em restando impasse, outra solução não há senão a que encaminhamos no
nosso relatório, infelizmente."
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP),
reconheceu que não havia acordo com o governo, mas manteve a votação. Segundo
ele, havia compromisso com os senadores para deliberar sobre a matéria.
"O ministro [Durigan] me informou que o texto relatado
pelo senador Renan Calheiros não tem o acordo, o entendimento e o apoio do
governo. Porém, todavia, entretanto, eu fiz um compromisso público, aguardando
alguns meses a deliberação desse assunto no Senado", disse Alcolumbre.
"Não há um acordo com o governo, mas vou deliberar hoje o relatório
aprovado pela CAE."
Outras pautas com impacto fiscal
A aprovação do refinanciamento rural ocorreu em um dia de
avanço de outras propostas com impacto fiscal no Senado.
A Comissão de Constituição e Justiça aprovou uma PEC que
efetiva vínculos temporários e flexibiliza regras de aposentadoria para agentes
comunitários de saúde e de combate às endemias, com custo estimado em R$ 30
bilhões em dez anos.
Já a Comissão de Assuntos Sociais aprovou projeto que eleva
o piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas para R$ 13,6 mil, em jornada
de 20 horas semanais, com impacto estimado em R$ 47 bilhões.
Com o retorno do projeto do socorro aos produtores rurais à
Câmara, caberá aos deputados decidir se mantêm as mudanças feitas pelo Senado.
O governo deve tentar reduzir o impacto fiscal da proposta na próxima etapa da
tramitação.