Por: Edilberto Araújo | 23/12/2025
O Ministério Público do Amapá
(MP-AP), por meio da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde, ingressou com
Ação Civil Pública (ACP) na Justiça requerendo a responsabilização do Estado do
Amapá, do Centro de Promoção Humana Frei Daniel Saramate (Capuchinhos) e da
empresa Saúde Link pelos danos causados a pacientes submetidos a um mutirão de
cirurgias de catarata realizado em 2023.
Entre os pedidos formulados, está
o pagamento de pensão vitalícia às vítimas que tiveram perda total da visão,
além de indenizações por danos morais e materiais.
De acordo com a ação, 141
pacientes foram atingidos por um surto de endoftalmite, uma infecção ocular
grave, após os procedimentos cirúrgicos. Do total, 17 pessoas perderam
completamente a visão, enquanto dezenas de outras ficaram com sequelas severas,
comprometendo de forma definitiva a saúde ocular, a autonomia e a qualidade de
vida.
O mutirão foi realizado no Centro
de Promoção Humana – Capuchinhos, como parte de um programa de ações
socioassistenciais executado pelo Governo do Estado.
O MP-AP acompanha o caso desde a
ocorrência dos fatos, por meio de procedimento administrativo instaurado para
apurar responsabilidades e assegurar a adoção de medidas de assistência às
vítimas.
Ainda em 2023, foi expedida a
Recomendação nº 002/2023 pela 1ª Promotoria de Defesa da Saúde, com o objetivo
de minimizar os danos, garantir atendimento médico adequado e cobrar
providências dos responsáveis. No entanto, segundo o Ministério Público, as apurações
e reuniões realizadas ao longo do acompanhamento revelaram um cenário de
descaso, omissões e fragilidade na gestão, fiscalização e controle das ações de
saúde por parte dos envolvidos, em especial do Estado.
A Ação Civil Pública se baseia em
elementos colhidos em fiscalizações e relatórios técnicos de diferentes órgãos.
A Superintendência de Vigilância em Saúde (SVS) constatou condições
higiênico-sanitárias inadequadas no local, falhas no fluxo e no acolhimento dos
pacientes, além do uso impróprio de vestimentas durante os procedimentos.
As inspeções também identificaram
irregularidades graves no centro cirúrgico e na Central de Material e
Esterilização, com deficiência nos protocolos de controle de infecção e riscos
elevados de infecção hospitalar.
Outro ponto central da ação é o
relatório elaborado pelo Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos
Serviços do SUS, o EpiSUS-Avançado. O documento analisou todas as 141 cirurgias
realizadas no dia do mutirão e concluiu que o surto de endoftalmite foi
consequência de uma falha sistêmica, previsível e plenamente evitável.
Para o MP-AP, o relatório
representa prova técnica robusta de que houve negligência grave e imprudência
por parte da empresa executora e do centro filantrópico responsável pela
estrutura do atendimento.
O Conselho Regional de Medicina
do Amapá (CRM-AP) também apontou riscos relevantes. Em termo de vistoria
realizado em 5 de julho de 2023, o órgão alertou para problemas em áreas
diretamente relacionadas à segurança do paciente, reforçando os indícios de que
os procedimentos foram realizados sem a observância rigorosa das normas
técnicas e sanitárias exigidas para cirurgias oftalmológicas.
Diante do conjunto de provas,
depoimentos das vítimas e relatórios de inspeção, o Ministério Público requer à
Justiça o reconhecimento da responsabilidade civil objetiva e solidária do
Estado do Amapá, do Centro de Promoção Humana Frei Daniel Saramate e da empresa
Saúde Link.
A ação pede a condenação ao
pagamento de danos morais coletivos em valor não inferior a R$ 9 milhões, além
de indenizações por danos materiais e morais individuais e o pagamento de
pensão vitalícia às pessoas que perderam totalmente a visão, como forma de
reparação contínua diante do impacto irreversível causado pelo episódio.