O Inquérito das Fake News, aberto
em 2019 sem previsão constitucional clara, era apresentado como uma resposta
necessária a ataques reais às instituições democráticas. As prisões, os
bloqueios de contas e as restrições a perfis nas redes sociais eram enquadrados,
por muitos, como o preço inevitável de conter um movimento que supostamente
ameaçava o Estado de Direito.
E o pior: quem questionava os
métodos era, com frequência, associado ao grupo que se dizia estar sendo
combatido.
O cenário começou a mudar quando
os alvos das ações de Moraes deixaram de ser exclusivamente figuras ligadas ao
bolsonarismo. Depois, em agosto de 2024, as revelações da Vaza Toga expuseram o
uso informal do aparato judicial para fins que iam além do combate à
desinformação.
O escândalo envolvendo o
banqueiro Daniel Vorcaro levantou questões sobre a fronteira entre a função
pública e interesses privados. Até que a operação contra o jornalista
maranhense Luís Pablo, determinada no âmbito do mesmo inquérito que tantos
haviam apoiado, tornou o silêncio difícil de sustentar.
Assim, ganhou forma um fenômeno
que merece registro: figuras e entidades de campos políticos distintos, que em
momentos anteriores haviam apoiado ou tolerado a atuação de Moraes, passaram a
questioná-la publicamente.
Em alguns casos, trata-se de uma
revisão de posição clara e assumida. Em outros, de um amadurecimento gradual
diante de fatos novos. Em todos, de um debate que o país precisava ter e chegou
tarde.