O “STF Futebol Clube”, na famosa
expressão usada por Flávio Dino na reunião que selou a entrega da relatoria do
caso Master por Dias Toffoli, continua dando mostras de uma coesão e um
espírito de equipe de fazer inveja a técnicos e torcedores do país todo especialmente quando se trata do ferrolho montado para garantir que a corte não
saia derrotada em meio ao escândalo crescente. Neste quesito, o decano Gilmar
Mendes não anda devendo nada aos melhores zagueiros do planeta, desarmando mais
uma vez a CPI do Crime Organizado ao derrubar mais uma quebra de sigilo
decretada pelos senadores.
No fim de fevereiro, Gilmar havia
blindado a Maridt Participações, a empresa familiar da qual Dias Toffoli só
admitiu ser sócio quando não havia mais forma de esconder a verdade. O decano
do STF ressuscitou uma ação já arquivada, que trava de uma quebra de sigilo
decretada na CPI da Covid, para anular a quebra dos sigilos bancário, fiscal,
telefônico e telemático da Maridt, decidida pela mesma CPI do Crime Organizado.
Em resumo, para impedir que a bola alçada na área caísse nos pés de André
Mendonça o novo relator do caso Master – ou nos de algum outro ministro
sorteado, Gilmar subiu mais alto, dominou a pelota com a mão e a chutou para
longe, sem medo do apito do árbitro, até porque o juiz é ele mesmo. Agora, foi
a vez de impedir a quebra de sigilo do fundo Arleen, do cunhado de Daniel
Vorcaro, e que negociou com os irmãos Toffoli o resort Tayayá.
“As decisões e as
declarações dos ministros mostram que, para eles, o espírito de corpo e a
proteção mútua são muito mais importantes que a justiça ou a busca pela verdade”
Um argumento usado pelo decano é
bastante esclarecedor. A quebra de sigilo do Arleen, segundo Gilmar, é a
“reiteração material de providência investigativa já reputada inconstitucional,
agora dirigida a sujeito formalmente diverso, mas inserido no mesmo contexto
fático-probatório anteriormente afastado”. Os senadores, segundo ele,
desejariam, “por via oblíqua, acessar informações que se inserem no mesmo
espectro investigativo já considerado inadmissível”. Essas últimas palavras
entregam a tática: em bom português, “espectro investigativo já considerado
inadmissível” significa que absolutamente ninguém encosta nos negócios de Dias
Toffoli e seus irmãos, e quem o fizer deve se considerar pronto para levar um
carrinho por trás, sem direito a reclamação ou revisão por vídeo recorde-se
que até agora Gilmar não submeteu ao plenário do Supremo sua liminar que
blindou a Maridt.
“Para contemplar seus interesses,
[os ministros do Supremo] não têm nenhum constrangimento em rasgar a
Constituição e atropelar outro poder da República”, queixou-se o presidente da
CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira. E não são apenas os interesses
próprios dos ministros que eles têm protegido com afinco; basta ver como o
ministro Flávio Dino interferiu nos trabalhos de outra comissão, a CPMI do
INSS, derrubando outras duas quebras de sigilo: a de Roberta Luchsinger,
apontada como o elo entre o “careca do INSS” e Fábio Luís Lula da Silva, o
Lulinha, filho do presidente da República; e, no dia seguinte, do próprio
Lulinha – duas decisões com vários problemas jurídicos, apontados pela
Advocacia do Senado, e que até agora não têm data para análise no plenário.
O decano do Supremo ainda deu uma
demonstração de que a equipe está unida ao liderar, ao lado de Edson Fachin,
presidente da corte, uma homenagem ao outro ministro completamente enrolado no
caso Master: Alexandre de Moraes, que completou nove anos de STF neste domingo,
dia 22. Emocionado, Gilmar afirmou que Moraes tem “ânimo inquebrantável” e “já
suportou nestes nove anos tantas tribulações em virtude da sua irretocável,
proba e sacrificante atuação” – faltou apenas dizer que essa atuação de fato
sacrificou o devido processo legal, a liberdade de expressão e a própria
democracia no Brasil. Já Fachin, referindo-se aos “processos do golpe”, afirmou
que Moraes demonstrou “a virtude intimorata dos magistrados desta corte”.
Errado não está, pois, se há algo que os membros do Supremo não têm, é medo.
Não temem a lei, nem a Constituição, nem os freios e contrapesos (graças à
covardia de Davi Alcolumbre e Hugo Motta), nem a opinião pública: fazem o que
bem entendem, cientes de que não precisam prestar contas a ninguém.
Os ministros já haviam escolhido
a desmoralização pública quando assinaram nota unânime e conjunta negando que
Toffoli pudesse ser suspeito no caso Master e o próprio Toffoli os desmentiu quando se
absteve de participar do julgamento que manteve Vorcaro na cadeia. As decisões
e as declarações feitas desde então mostram que, para eles, o espírito de corpo
e a proteção mútua são de fato muito mais importantes que a justiça ou a busca
pela verdade. “Por via oblíqua”, para citar Gilmar Mendes, eles seguem impondo
como regra o mesmo sigilo com que Toffoli tentou esconder as investigações
sobre o Master quando era relator. “o abuso constante está destruindo a credibilidade
da Justiça”, afirmou o senador Alessandro Vieira. Os ministros diretamente
enroscados na teia de Vorcaro podem ser poucos, mas todos os que os ajudam ou
apoiam também estão se deixando arrastar para o poço do descrédito, graças à
cumplicidade mais abjeta.