Com oferta restrita, retenção de
fêmeas e demanda firme, mercado da cria ganha força em 2026 e pressiona margens
da recria e da engorda; Bezerro vai romper os R$ 20,00/kg? O mercado da
reposição entrou oficialmente em um novo patamar em 2026. O preço do bezerro
voltou a renovar máximas nominais históricas, consolidando um movimento de
valorização iniciado no final de 2024 e que já soma cerca de 15 meses
consecutivos de avanço.
Em diversas praças, o animal de
desmama (6 a 7 arrobas) já é negociado próximo de R$ 15,30/kg, enquanto em Mato
Grosso o bezerro de sete arrobas foi cotado a R$ 438,34/@ na segunda semana de
fevereiro, com alta mensal de 5,17%. A pergunta que ecoa na pecuária é direta:
essa valorização ainda tem espaço para avançar ou o mercado já está próximo do
limite?
Os dados históricos mostram que
os ciclos pecuários seguem padrões relativamente claros e entender esses
movimentos é essencial para interpretar o momento atual.
Bezerro valendo mais de R$
20,00/kg no horizonte? Quando se observa o histórico completo, o cenário fica
mais interessante. O preço do bezerro, avaliado em reais por arroba, renovou a
máxima nominal histórica na parcial de fevereiro de 2026, segundo análise do
Farmnews com dados do Cepea.
Contudo, há um detalhe
importante: apesar dos recordes nominais, a intensidade da alta ainda está
abaixo do ciclo anterior (2020/2021). No ciclo passado, a valorização anual
chegou a superar 70%. No ciclo atual, o pico da variação anual ficou pouco
acima de 40%.
Isso indica que: O movimento
atual é mais gradual e menos concentrado; A alta pode ser mais longa no tempo,
mas menos explosiva; Ainda não houve um “estouro” típico de final de ciclo.
Historicamente, cada ciclo pecuário supera o pico anterior em termos nominais.
Se esse padrão se repetir, patamares acima de R$ 20,00/kg não são impossíveis
ao longo do ciclo, especialmente se a retenção de fêmeas continuar reduzindo a
oferta de bezerros.
Ágio recorde e oferta restrita
sustentam preços outro indicador-chave é o ágio do bezerro sobre o boi gordo.
Em Mato Grosso, o ágio alcançou 44,78% em fevereiro, reflexo da menor
disponibilidade de animais de reposição e da demanda firme. Esse percentual
evidencia o forte poder da cria no atual momento do ciclo. Em São Paulo, apesar
de uma leve acomodação mensal, o ágio ainda está 52% acima do registrado em
fevereiro de 2025, mostrando que estruturalmente o mercado segue aquecido. Além
disso, a Scot Consultoria aponta que: As chuvas melhoraram a capacidade de
suporte das pastagens; A valorização do boi gordo sustenta o otimismo; os
preços atuais não eram vistos desde 2021/2022 (em valores nominais).
Relação de troca: recria ainda pressionada
embora o bezerro esteja firme, o comportamento do boi gordo também influencia
diretamente a reposição.
Em Goiás, segundo levantamento
citado pela Scot: São necessárias 14,4 arrobas de boi gordo para comprar um boi
magro; 12,0 arrobas para um garrote; 10,5 arrobas para um bezerro de ano; 8,9
arrobas para um bezerro de desmama . Ou seja, o poder de compra melhorou para
algumas categorias, mas segue pressionado no comparativo anual. O recriador e o
invernista precisam fazer contas com margem apertada. Onde o bezerro está mais
valorizado e onde está mais barato?
Com o mercado firme e oferta
restrita, os preços da reposição avançaram de forma generalizada. Mas as
diferenças entre estados continuam relevantes e impactam diretamente a
estratégia de compra e venda. Com base na tabela de cotações da Scot
Consultoria (macho Nelore bezerro de 12 arrobas), o ranking de preços por
cabeça mostra onde o animal está mais valorizado e onde ainda há oportunidade
de compra.
🏆 Ranking do Bezerro –
Mais caro para o mais barato (R$/cabeça)
1️ São Paulo (SP) – R$ 3.440,80
2️ Mato Grosso (MT) – R$ 3.425,20
3️ Tocantins (TO) – R$ 3.415,00
4 Pará (PA) – R$ 3.300,00
5️ Goiás (GO) – R$ 3.166,00
6️ Minas Gerais (MG) – R$
3.355,20
7️ Mato Grosso do Sul (MS) – R$
3.636,30*
8️ Bahia (BA) – R$ 3.205,00
9️ Rondônia (RO) – R$ 3.233,40
10 Rio de Janeiro (RJ) –
R$ 3.000,00 *Obs.: MS aparece como uma das praças mais valorizadas, refletindo
forte demanda regional.
Em termos de R$/kg mais
valorizado: Mato Grosso do Sul – R$ 15,15/kg menos valorizado: Rio de Janeiro –
R$ 12,50/kg
O que explica essa diferença?
São Paulo e MS concentram forte
demanda de recria e engorda intensiva, além de logística favorecida para
frigoríficos.
Estados do Norte e parte do
Nordeste ainda apresentam valores ligeiramente menores, reflexo de maior oferta
local e menor pressão industrial imediata. Essa diferença regional impacta
diretamente a relação de troca e o custo da reposição. Em mercados mais
valorizados, a margem da recria fica mais apertada, mas, por outro lado,
reforça o bom momento da cria.
Estamos abaixo do pico real?
Um ponto técnico relevante é a
análise em termos reais (descontada a inflação). Apesar das máximas nominais,
quando deflacionado, o preço do bezerro ainda não superou com folga o pico real
anterior. Isso sugere que o mercado ainda não atingiu o topo estrutural do
ciclo, reforçando o argumento de continuidade. Além disso, como lembra o
Farmnews, em todos os ciclos anteriores a máxima superou o pico precedente.
Esse padrão histórico sustenta o viés altista. O que pode levar o bezerro ainda
mais longe?
Alguns fatores estruturais podem
ampliar o movimento:
1. Retenção de fêmeas: Com a cria
mais rentável, produtores tendem a segurar matrizes, reduzindo ainda mais a
oferta de bezerros.
2. Exportações firmes de carne
bovina: Caso o boi gordo siga valorizando com suporte do mercado externo, a
reposição acompanha.
3. Ciclo pecuário clássico: Menor
oferta atual gera escassez futura, reforçando preços ao longo do ciclo.
4. Custo de produção
estabilizado: Com milho e insumos mais acomodados, há maior previsibilidade
para recria e engorda.
Até onde pode chegar?
Se o ciclo atual repetir o
comportamento histórico: O movimento pode ser mais longo e consistente; A
valorização pode ainda não ter atingido o pico estrutural; Patamares nominais
inéditos podem ser registrados.
No entanto, o ritmo tende a
depender da sustentação do boi gordo. Caso o animal terminado desacelere, o
ágio pode se ajustar, limitando o avanço da reposição. Hoje, o cenário é claro:
a cria vive seu melhor momento desde 2021/2022, o mercado está firme, a oferta
é restrita e os indicadores históricos sugerem que ainda pode haver espaço para
novas máximas.
A grande dúvida não é mais se o
bezerro está em alta. A pergunta agora é: quanto tempo esse ciclo ainda vai durar
e quem vai capturar melhor essa valorização?